segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Beleza Tucujú

            Diga-se de passagem, o Amapá possui muitas belezas naturais. Seu verão inigualável, chuvas torrenciais, por do Sol único, e o raiar do dia... hum, nem se fala. Apenas quem já teve a oportunidade de aqui estar, pode depor a favor desta terra abençoada.
Imaginem só, índios, ribeirinhos e o povo da cidade desfrutando este vasto leque de opções. É de dar inveja, não é mesmo?
Indo floresta a dentro nos deparamos com os verdadeiros povos da floresta. Em minhas andanças conheci uma aldeia de índios humildes, calorosos e se não bastasse, hospitaleiros... Meio “acanhado”, fui entrando em seu habitat, e quando vi, que recepção!
Fui bem tratado por todos, dos curumins ao cacique. Quando dei por mim, estavam ao meu redor dezenas de pessoas desconhecidas e curiosas, querendo saber o que eu fazia naquele lugar. Era um me tocando, outros averiguando o que eu tinha na bagagem e por fim me levaram a maloca central.
Era hora do por do Sol e nessa hora, todos se aconchegavam nesta maloca e ficavam horas conversando, trocando ensinamentos, rindo e cantando seus lamentos... Falavam uma língua que na época eu não entendia, apenas alguns arriscavam o português.
Observando as pessoas, percebi que a aldeia era composta por homens fortes e robustos; crianças que nos olhavam admiradas e sabiam escutar o que os antigos falavam; velhos com o rosto marcado pelo tempo (aqueles que ao se ver já sabemos que possuem muita experiência de vida) e mulheres, e que mulheres... Traços encantadores, voz suave, toque firme, resumindo, a verdadeira imagem de uma guerreira amazona.
Muito novo, logo me “engracei” por uma pequena e formosa índia, a mesma que me olhava dos cantos dos olhos, sorriso discreto e tímido. Ali criei em minha mente um fascínio incrível por ela. Seu nome era Maíra, mas os índios que falavam nossa língua a chamavam de Bela. Vou confessar que Bela era o nome perfeito, e na oportunidade, se encaixou muito bem a imagem da mesma.
A conversa estava agradável, assim como o entardecer... Chegou a hora da fogueira – imaginem o clima. Luar, fogueira, uma conversa agradável e uma musa inspiradora. Juro que não queria mais nada neste momento – Porém, veio uma bebida forte, feita com o caldo da mandioca fermentado e incrementado de cachaça... ai, ai, quanta coisa boa em um só dia.
Por volta das 20:00 horas as moças começaram a dançar enquanto os homens tocaram e entoaram cantigas diversas em sua língua.
Logo volto minha atenção a Maíra, linda como a Lua. Levantou-se do seu canto, arrumou o cabelo (negro como a noite e longo e ondulado como o rio), foi dançar com suas amigas.
Não falei dos trajes destas moças... Eram apenas tangas (espécie de biquíni), camiseta e adereços feitos com materiais naturais.
Todas eram muito belas, mais ela, era de parar o trânsito (se tivesse isso por lá). Todos se divertiram e, no fim da noite, estávamos exaustos. Comemos, bebemos, conversamos e admiramos as moças a dançar... Bateu o cansaço e por mais que eu quisesse estender a noite mais um pouco, as pessoas levantaram, despediram-se e foram para suas casas... Fui levado para um local amplo, que parecia um armazém, me arrumaram uma rede e nela deitei e dormi muito rápido.
Uma mão delicada em meu rosto e um olhar meigo e encantador em mim... Era a Bela a me fitar, fiquei sem ação – imaginem vocês, no meio da noite, terra desconhecida e uma mulher tão atraente – Ela se sentou ao meu lado, suas mãos acarinhando meus cabelos enquanto eu estava mais imóvel que uma estátua, suava frio. Não tardou muito e a calma voltou. Não se empolguem, pois apenas olhares e carinhos foram trocados. Porém, as batidas dos nossos corações pareciam sinos de uma catedral... Soavam alto. Adormeci mais uma vez.
Assusto-me com uma criança sacudindo minha rede, e ao abrir os olhos, percebo que aqueles olhares e carícias foram apenas sonho, devaneios de uma imaginação fértil. Ah como eu queria que aquela moça tivesse ido ao meu encontro no meio da madrugada...
Na aldeia, ao raiar o dia, todos tomam banho em um rio longo e límpido que fica perto de lá. Ao chegar vejo Maíra e com ela voltam as imagens do sonho... Olho-a com firmeza, ela se acanha e baixa os olhos... Estava sentado a beira do rio em uma pedra e ao sair da água a moça passa por trás de mim e toca em meu cabelo, sinto a mesma sensação do sonho, o mesmo toque suave, o mesmo perfume. Ela deixa suas unhas deslizarem em minhas costas, ouvimos um grito vindo da aldeia, era hora do café.
Depois de me alimentar, vou ao alojamento, arrumo minhas coisas e saio para me despedir... Sorrisos, abraços, apertos de mão e risadas, muitas risadas... De longe enxergo meu “sonho”, ela não teve coragem de se aproximar naquele momento. Dou as costas para a aldeia e sigo rumo ao barco, entro, sento, o índio liga o motor, me viro, dou mais uma olhada...
Pena, nem um olhar de despedida...
Já no meio do rio, a uma hora de distância, o barqueiro larga o leme se encaminha até a mim e sem reserva me entrega  um bilhete... Fiquei curioso, abri e para minha surpresa a escrita era:
"_Volte logo... Adorei sonhar com você!

Beijos, Maíra"

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